As 10 melhores pinturas do mestre modernista Marc Chagall
Nascido na região da Bielorrússia, no Império Russo, com o nome de Moyshe Segal, em Julho de 1887, o ambiente em que Chagall vivia influenciou as suas escolhas posteriores, assim como a sua infância forjou nele a determinação de procurar por uma vida melhor do que a que o seu pai lhe reservara.
O mais velho de nove filhos, Chagall teve um pai, Zachar, que carregava barris para um comerciante de peixe. O trabalho era árduo, para dizer o mínimo. Chagall comparou-o ao de um “escravo de galés” na sua auto-biografia, Minha Vida, e essa lembrança deixou-o determinado a evitar um destino semelhante. ” O meu coração contorcia-se como um bagel turco quando eu via o meu pai a levantar aqueles pesos”, escreveu Chagall.
Reverenciado por Pablo Picasso e pelos seus colegas surrealistas, o artista franco-russo deixou a Rússia para perseguir o seu sonho de se tornar artista. Abraçando a arte folclórica russa e os ícones da Igreja Ortodoxa, Chagall fundiu a tradição artística judaica com ideias ocidentais contemporâneas, criando uma nova e empolgante forma de modernidade, caracterizada pelo uso brilhante da cor e uma abordagem imaginativa.
Foi após a sua mudança para Paris, em 1911, que a cor intensa passou a ser uma característica marcante na arte de Chagall, inspirada pelo movimento Fauvista que varria a França na época. As suas obras posteriores exploraram o amor, a religião e a paz mundial através da pintura, murais e até vitrais, numa carreira que o tornou uma figura fundamental na história do Modernismo europeu.

1. O casal com dois buquês – 1982
Pintada durante um período criativo prolífico da carreira de Chagall. Aos incríveis 94 anos, a estabilidade e a satisfação na sua vida pessoal, após a sua mudança para o sul da França com a sua segunda esposa, Vava Brodsky, transbordam da tela na forma de um sol radiante, cores vibrantes e vegetação exuberante.
O tema de casais apaixonados era algo que Chagall já tinha explorado nos seus trabalhos anteriores, ele revisita o tema para revelar a importância da memória para ele nesta fase da sua carreira. A pintura retrata uma visão fascinante de um mundo de sonhos e romance extáticos, uma abordagem tipicamente chagalliana.

2. Cavalo de Circo – 1964
De regresso a um dos seus temas prediletos dos primeiros anos em Paris, Chagall, já na casa dos setenta, pintou uma das suas obras tardias mais refinadas e vigorosas. Nela, ele evoca mais uma vez imagens do passado e projecta uma persona de juventude precoce em primeiro plano, como o palhaço sorridente numa criação imaginária que chamou de “teatro da memória”.
“Para mim, um circo é um espetáculo de magia que aparece e desaparece como um mundo. Um circo é perturbador. É profundo. Estes palhaços, cavaleiros sem sela e acrobatas instalaram-se nas minhas visões. Sou tão tocado pela sua maquilhagem e as suas caretas. Com eles, posso avançar rumo a novos horizontes. Atraído pelas suas cores e maquilhagem, posso sonhar em pintar novas distorções psíquicas”, explicou Chagall.

3. Crucificação Branca – 1938
Se os primeiros trabalhos de Chagall refletiam um optimismo e uma sensação de entusiasmo após o seu casamento e a Revolução Russa, a sua pintura de 1938 oferece uma perspectiva oposta sobre o sofrimento dos judeus europeus durante a década de 1930 e a sua resposta à ascensão do antissemitismo na Europa.
Judeu ortodoxo devoto, Chagall abandona o tom fantasioso e optimista que definiu a sua carreira anterior, dando lugar a uma intensidade sombria e melancólica. Em “Crucificação Branca”, ele retrata Jesus na cruz, com figuras judaicas ao seu redor fugindo da devastação, ligando eventos bíblicos à perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, numa das suas obras-primas mais aclamadas pela crítica.

4. Violinista Verde – 1923
Entre as imagens mais conhecidas e reproduzidas da obra quintessencial de Chagall, destacam-se algumas variações que teriam influenciado o nome do musical de 1964, “Um Violinista no Telhado”. Chagall afirmou que o pintou de verde por razões puramente “psíquicas e plásticas”, afirmando que o verde é uma “cor poética arbitrária”.
Evocando as suas memórias de Vitebsk e da zona rural russa, a devoção de Chagall às suas raízes culturais judaicas transparece nesta versão do violinista (Musicien), desprovida das formas geométricas cubistas das suas vestes, que podem ser vistas na versão anterior do Violinista Verde no Museu Guggenheim de Nova Iorque.

5. O Passeio – 1918
Incorporando um sentimento de liberdade e optimismo após o seu casamento alguns anos antes, bem como a euforia e o optimismo que se seguiram à Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, “O Passeio” retrata uma imagem de pura felicidade enquanto a sua esposa, Bella, flutua sem esforço ao vento.
A imagem estimulante e quase sobrenatural utiliza a sua cidade natal, Vitebsk, como paisagem para compor uma das pinturas mais românticas de Chagall. Ela faz a ponte entre movimentos artísticos de vanguarda, incluindo o Cubismo, como demonstrado no prado geométrico e na mistura de casas cúbicas que se elevam em direcção ao céu, e o Futurismo, presente na ornamentação das pregas da saia de Bella.

6. Bella com colarinho branco – 1917
Chagall regressou à Rússia em 1914 para ficar com a sua noiva, Bella Rosenfeld, filha de um rico joalheiro russo. No entanto a eclosão da Primeira Guerra Mundial prolongou o que deveria ser uma estadia de três meses até 1923, e durante esse tempo Bella foi a sua musa.
Exibindo o domínio de Chagall sobre temas e formas mais tradicionais, Bella com Colarinho Branco é um dos seus retratos mais famosos da sua primeira esposa. A sua figura gigante, maior que o natural, destaca-se através de uma exuberante paisagem campestre, com apenas um leve toque de surrealismo aos pés de Bella, onde duas figuras minúsculas representam Chagall e a filha do casal, Ida.

7. O Aniversário – 1915
Expressando o seu amor eufórico pela sua esposa, Bella, pouco antes do casamento em 1915, a pintura flui de maneira onírica. Chagall paira surrealmente sobre Bella, com o pescoço estendido e a cabeça inclinada para baixo enquanto se vira para beijar a sua futura esposa.
Fundindo os estilos cubista e expressionista, a ode ao sentimento do amor jovem passa-se num cenário feliz, porém comum, no entanto a alegria transborda de cada cor da tela. “Na nossa vida, existe uma única cor, como na paleta de um artista, que dá sentido à vida e à arte”, afirmou Chagall. “É a cor do amor.”

8. A Noiva – 1913
André Breton afimrou certa vez que “com Chagall apenas, a metáfora fez o seu regresso triunfal à pintura moderna”, e isso transparece na tela de A Noiva, na qual os mundos real e imaginário se entrelaçam. O fundo azul retrata a escuridão, a melancolia e a tristeza, que contrastam brilhantemente com o vibrante vestido vermelho e o véu branco da noiva radiante.
O domínio de Chagall sobre poucas cores e a sua imaginação vívida dão vida à pintura do casal flutuante, surrealmente embalado por uma cabra tocando o que parece ser um violoncelo e um homem tocando clarinete, enquanto um peixe salta no ar abaixo de uma mesa flutuante.

9. Paris pela Janela – 1913
Absorvendo os diversos movimentos de vanguarda que fervilhavam na capital francesa da época, a ode de Chagall ao horizonte parisiense apresenta planos sobrepostos e semi-transparentes de cores vibrantes, numa clara referência ao cubismo órfico, com a bandeira tricolor francesa tremulando sobre a cidade.
Reminiscente de uma das muitas pinturas cubistas da Torre Eiffel de Robert Delaunay, Chagall utiliza cores fauvistas brilhantes para reflectir a modernidade, incluindo uma alusão ao primeiro salto de para-quedas bem-sucedido em 1912. Enquanto isso, o seu exílio da Rússia é representado por um comboio de cabeça para baixo que não pode levá-lo para casa, a figura de Janus em primeiro plano e o gato com rosto humanoide que espelha a crença judaica de que pecadores mortos frequentemente regressam como gatos para assombrar familiares.

10. Eu e a Aldeia – 1911
Pintada após a sua mudança para La Ruche (A Colmeia), uma comunidade parisiense de artistas internacionais em Montparnasse, “Eu e a Aldeia” revela a influência inicial do Cubismo e do Fauvismo na arte de Chagall, porém com uma abordagem mais lúdica e liberal do que a dos seus contemporâneos, como Pablo Picasso ou Henri Matisse.
O paraíso bucólico da zona rural russa retratado por Chagall reflecte os seus sonhos e memórias de infância da sua terra natal, juntamente com símbolos de contos folclóricos. Essa mistura do moderno com o figurativo, num tom leve, luminoso e fantasioso que incorpora elementos de outros movimentos modernos da época, o ajudaria a tornar-se uma figura famosa e influente no mundo da arte.
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