A evolução da bola ao longo dos tempos da Copa do Mundo (Parte 1)
As bolas usadas nas maiores partidas de futebol passaram por uma transformação drástica desde o primeiro torneio, no Uruguai, em 1930. A história da Copa do Mundo, de muitas maneiras, conta a história da própria evolução do futebol profissional.
Isso é visível no desenvolvimento da bola da Copa do Mundo, que passou de uma bexiga de porco revestida de couro para as esferas sintéticas de alta tecnologia que vemos à venda em lojas e comercializadas em todo o mundo hoje em dia.
A bola também desempenhou um papel importante na definição do rumo da história da Copa do Mundo. Desde uma troca de bola ao intervalo que influenciou uma final até ao modelo “supermercado” detestado pelos guarda-redes, aqui ficamos com uma breve história sobre a bola oficial da Copa do Mundo.

1. Al Rihla – 2022
Em 2022, a Copa do Mundo foi realizada no Catar e a Al Rihla foi a bola oficial da partida, produzida pela Adidas. O design difere um pouco das bolas de Copas do Mundo anteriores, com 20 painéis (um aumento de 14 em relação aos 18 da Telstar), porém a velocidade e precisão continuam a ser princípios fundamentais para os fabricantes, com a Al Rihla projectada para manter altas velocidades de voo.
Com um núcleo CRT e uma camada externa texturizada “Speedshell”, a Adidas procurou por garantir que a bola atendesse às necessidades de um jogo cada vez mais dinâmico. Assim como várias das suas antecessoras, a Al Rihla, que significa “a jornada” em árabe, incorpora aspectos do país anfitrião no seu design, com as cores e os motivos sendo uma homenagem à bandeira e à arquitectura do Catar.

2. Telstar 18 – 2018
Em Novembro de 2017, a Adidas lançou a Telstar 18, a bola oficial da Copa do Mundo de 2018 na Rússia. Uma recriação da primeira bola da Adidas usada numa Copa do Mundo, a clássica Telstar de 1970. Foi a primeira bola de torneio desde 1994 a ser predominantemente preta e branca.
A única cor na Telstar 18 eram os logótipos dourados da Adidas, da Telstar e da Copa do Mundo impressos na superfície branca da bola, com as secções pretas apresentando um efeito esbatido, como um mosaico.
Assim como a Brazuca, a Telstar 18 tinha apenas seis painéis, sendo que eles foram dispostos num formato completamente novo, dando a impressão visual de ser mais semelhante à bola de 32 painéis de 1970.
Uma versão ligeiramente diferente, chamada “Telstar Mechta”, foi introduzida para a fase eliminatória da competição. A combinação de cores da Mechta (que significa “sonho” ou “ambição” em russo) incluía vermelho e preto sobre um fundo branco. A bola foi amplamente testada antes do torneio e utilizada em diversas competições juvenis (com um design diferente), incluindo a Copa do Mundo Sub-20.
Apesar disso, a bola ainda gerou críticas, com os jogadores espanhóis David de Gea e Pepe Reina afirmando que era “estranha” e mais difícil de segurar do que outras bolas. O guarda-redes alemão Marc-André ter Stegen partilhou das mesmas preocupações, no entanto admitiu que os guarda-redes simplesmente teriam que se habituar há bola.

3. Brazuca – 2014
A Jabulani tinha sido um verdadeiro pesadelo de relações públicas para a Adidas, então, para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, a marca lançou aquela que alegava ser a bola mais testada de todos os tempos.
Foi chamada de Brazuca, uma gíria para “brasileira” que, segundo a FIFA, descreve o “orgulho nacional pelo estilo de vida brasileiro”. A bola apresenta fitas multicoloridas que imitam as populares pulseiras da sorte brasileiras. Mais uma vez, houve uma redução no número de painéis na bola, com a Brazuca tendo apenas seis.
A bola foi enviada para jogadores, selecções e federações nacionais em todo o mundo para testes extensivos e coleta de feedback antes do torneio. A Adidas chegou a enviar uma versão disfarçada para ser usada em algumas partidas de campeonatos nacionais. A Brazuca gerou muito menos controvérsia e foi adotada por diversas ligas de clubes, incluindo a Bundesliga e a MLS.

4. Jabulani – 2010
Em 2010, as coisas ficaram realmente interessantes. A Jabulani talvez seja a bola mais famosa de todos os tempos. Graças à sua notoriedade. A Adidas tentou criar uma bola mais redonda do que nunca, diminuindo novamente o número de painéis, de 14 na Teamgeist para apenas oito na Jabulani. No entanto, ela era considerada tão imprevisível que os guarda-redes revoltaram-se.
Júlio César comparou a Jabulani às bolas baratas vendidas em supermercados, enquanto Iker Casillas a chamou de “horrível”. Dizia-se que ela afectava tanto os passes quanto os chutos, e uma fase de grupos monótona e cautelosa contribuiu para que a bola recebesse ainda mais críticas.
A Adidas rebateu alegando que vinha testando a bola durante seis meses e apontou para elogios de jogadores patrocinados pela marca, como Frank Lampard e Michael Ballack. No fim, foi preciso um estudo da NASA para chegar ao fundo da questão. Descobriram que a bola Jabulani começou a “fazer curva” (movimento no ar) a uma velocidade maior do que as bolas anteriores devido à sua superfície mais lisa e com menos costuras.
Isso parece óptimo na teoria, no entanto o problema era que os chutos como faltas directas tendiam a viajar a essa velocidade mais alta, tornando o efeito mais perceptível na prática.

5. Teamgeist – 2006
Teamgeist significa espírito de equipa, uma homenagem à tradição da Alemanha, país anfitrião, a priorizar a força colectiva em detrimento do brilho individual.
A novidade mais notável em 2006 foi a introdução de um design com 14 painéis e menos costuras, que visava tornar a bola mais redonda e consistente. Nos testes, ela apresentou os melhores resultados entre todas as bolas do mundo na época do seu lançamento.
Contudo nem todos ficaram satisfeitos. Alguns jogadores reclamaram de um efeito “bola com efeito knuckleball” quando a bola estava no ar, alegando que a sua trajectória era imprevisível. Isso ficou evidente logo na primeira partida da Copa do Mundo, quando Philipp Lahm e Torsten Frings marcaram golos espectaculares que descreveram curvas e desvios visíveis no ar.
A Adidas produziu uma bola personalizada, impressa com os detalhes da partida, para cada jogo do torneio e também lançou uma versão especial dourada, a “Teamgeist Berlin”, para a final.

6. Fevernova – 2002
Com a Fevernova, criada para a Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão em 2002, a Adidas realmente começou a experimentar. Isso começou no design da bola, abandonando o visual tradicional da Tango em favor de uma bola lisa com padrões triangulares maiores em verde, dourado e vermelho.
Porém a Adidas também continuou a inovar nos aspectos técnicos da bola, com a Fevernova a ser notada por muitos jogadores por ser mais leve que os modelos anteriores, apesar de atingir o limite máximo de peso imposto pela FIFA.
David Beckham, embaixador da Adidas que ajudou a testar a Fevernova, corroborou as afirmações do fabricante de que esta era a bola mais precisa já produzida. Gianluigi Buffon, por outro lado, a descreveu como uma “bola com um quique maluco”.

7. Tricolore – 1998
A Copa do Mundo foi transmitida a cores pela primeira vez em 1970, contudo foi somente em 1998 que a bola seguiu o exemplo. A Adidas Tricolore, lançada para a Copa do Mundo de 1998 na França, foi a primeira bola a adoptar um design multicolorido. Ela manteve as tríades Tango, contudo, como o nome sugere, ganhou um toque de vermelho, azul e branco para combinar com a bandeira francesa.
Houve melhorias de desempenho, com a camada de espuma introduzida em 1994 ainda mais aprimorada para tornar a bola mais macia e rápida. No entanto o aspecto mais notável da Tricolore foi, sem dúvida, o design e o precedente que estabeleceu.
A introdução da cor abriu os olhos da Adidas para um mundo de novas possibilidades e levaria ao abandono do tradicional padrão Tango na Copa do Mundo seguinte, em 2002.

8. Questra – 1994
Para a primeira Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos, a Adidas apresentou a Questra. O tema desta edição foi a viagem espacial, o que ficou evidente tanto no design da bola quanto na tentativa de a tornar o modelo mais futurista e de alto desempenho já usado numa Copa do Mundo.
Após um torneio relativamente monótono na Itália, a FIFA esperava apimentar as coisas. A principal inovação foi uma camada de espuma de poliestireno na parte externa da bola, que, segundo a FIFA, a tornaria mais macia ao toque e mais fácil de controlar, além de aumentar a sua velocidade.
O efeito foi óbvio. Nenhuma selecção conseguiu manter o placard a zeros nos quartos de final. Apenas três das 16 equipas conseguiram isso na fase eliminatória. Ironicamente, a final foi um dos únicos três empates em 0 a 0 em todo o torneio, no entanto, no geral, foi a Copa do Mundo com mais golos desde 1982 e contou com alguns lances espectaculares.

9. Etrusco Unico – 1990
Dando continuidade ao tema de homenagear de alguma forma o país anfitrião, a bola da Copa do Mundo de 1990 foi baptizada em homenagem aos etruscos, uma civilização da Itália antiga. O detalhe mais notável foi a decoração das tradicionais “tríades” no estilo Tango com cabeças de leões etruscos, um tema comum nas belas artes da época.
Após a Copa do Mundo de 1986, a Adidas continuou a trabalhar nos materiais e propriedades da sua bola totalmente sintética, com a Etrusco Unico representando uma evolução da Azteca. De facto, durante 20 anos, entre 1978 e 1998, houve pouquíssimas mudanças na aparência da bola oficial da Copa do Mundo, além do facto de que as Tangos originais eram feitas de couro.

10. Azteca – 1986
A Azteca não é uma bola particularmente memorável em si, no entanto é de vital importância na história das bolas da Copa do Mundo por alguns motivos.
Para começar, a Adidas, que já tinha reutilizado a Tango na Espanha, mais uma vez criou uma bola específica para o país anfitrião, neste caso, o México. Essa tradição continuaria em todos os torneios dali em diante. Porém, o mais importante ainda, esta foi a primeira bola sintética a ser usada numa Copa do Mundo.
O atractivo das bolas sintéticas era evidente: elas retornavam à sua forma original imediatamente após serem chutadas e apresentavam desempenho superior ao das bolas de couro em praticamente todos os aspectos, incluindo resistência à água e durabilidade. O design da Azteca e os padrões triangulares característicos da Adidas foram inspirados na arquitectura e nos murais astecas.
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