10 curiosidades sobre o Norovírus
1. É a principal causa de gastroenterite aguda no mundo
Esta característica marcante do norovírus é provavelmente ainda mais impressionante agora que a vacina contra o rotavírus está disponível, reduzindo drasticamente os casos infantis causados por este vírus.
Caso se esteja a perguntar, o que é “gastroenterite aguda”? Significa simplesmente uma doença diarreica de início súbito que dura menos de duas semanas e pode ser acompanhada de náuseas, vómitos, dor abdominal e febre.
2. Foi descoberto após o estudo de amostras de fezes armazenadas, recolhidas durante um surto comunitário em 1968
Este surto afetou metade dos alunos de uma escola em Norwalk, Ohio, daí o nome, “Noro”, que tem a sua primeira sílaba derivada de “Norwalk”. Imaginamos que os cidadãos daquela cidade não quisessem ser recordados por esta semana lamentável.
Antes da identificação do vírus, os cientistas suspeitavam fortemente de um agente transmissível para esta doença, por razões óbvias. Não só a taxa de infecção era muito elevada naquela escola, como alguns familiares daqueles alunos (que não frequentavam a escola) também apresentavam sintomas semelhantes. De seguida, os investigadores realizaram algumas experiências de infecção humana altamente perturbadoras (do ponto de vista ético) com amostras recolhidas durante esse mesmo surto, comprovando que o vírus era, de facto, contagioso. Consegue imaginar tentar aprovar estudos como estes num comité de ética em investigação com seres humanos hoje em dia? Terrível.
3. Os casos de norovírus atingem o pico nos meses de Inverno
Aliás, a doença já foi chamada de “doença do vómito de Inverno” devido a este pico sazonal, um termo genérico utilizado antes da descoberta do agente causador. Então porquê o Inverno? As pessoas reúnem-se em ambientes fechados, aconchegando-se para se protegerem do frio, transmitindo vírus respiratórios uns aos outros através do ar e vírus como o norovírus nos alimentos, água e superfícies contaminadas.
Era também chamada de “gastroenterite não bacteriana” para a distinguir da salmonela, da shigella e de outras causas de diarreia que podiam ser diagnosticadas por culturas. Estes rótulos com “não” na medicina sempre me divertiram, descrever algo pelo que não é. Sabe, “hepatite não A, não B” antes de sabermos da hepatite C, ou “micobactérias não tuberculosas (MNT)”, um termo ainda muito utilizado apesar de existirem muito mais MNT do que micobactérias tuberculosas.
4. Os locais notórios por surtos de norovírus incluem navios de cruzeiro, creches, parques aquáticos, quartéis militares, lares de idosos e dormitórios universitários
No entanto é mais comum especialmente em navios de cruzeiro.
Agora que já viu a lista de surtos relatados em navios de cruzeiro apenas no último ano, ainda quer fazer aquele cruzeiro de Inverno?
Facto: qualquer lugar ou situação em que as pessoas se reúnem em ambientes fechados e onde a contaminação de alimentos, água e superfícies é difícil de controlar pode desencadear estes surtos. Quanto a alimentos específicos? As ostras são frequentemente mencionadas, o que não é surpresa, Dando mais um motivo para evitar estas criaturas viscosas.

5. O período de incubação é normalmente de 24 a 48 horas após a exposição
No entanto, isto não significa que uma pessoa esteja “livre” ao fim de alguns dias, caso não contraia o vírus numa residência, navio de cruzeiro ou dormitório com casos ativos, por razões que serão evidentes nos próximos factos alarmantes sobre a durabilidade e a omnipresença do norovírus no nosso mundo.
6. Embora a eliminação do norovírus atinja o pico durante a fase aguda da doença, o vírus ainda pode ser detectado nas fezes durante semanas em muitas pessoas, pequenas quantidades podem causar doenças e é extremamente difícil de eliminar
O tempo médio para a eliminação do vírus é de um mês. Impressionante. Uma proporção considerável de crianças assintomáticas elimina o vírus, quase metade num estudo com crianças no México.
Além disso, é um vírus incrivelmente resistente, resiste à congelação, ao aquecimento a 60 °C e não é eliminado pelos desinfetantes para as mãos à base de álcool. Segundo os especialistas este último fenómeno se deve ao capsídeo resistente do norovírus, em contraste com os envelopes muito mais frágeis de outros vírus, como o SARS-CoV-2 e o da gripe. No entanto os virologistas têm uma explicação muito mais sofisticada.
Então por que razão nem todos contraem norovírus a todo o momento, ou pelo menos uma vez por ano. A resposta está nos princípios básicos das doenças infeciosas: factores do hospedeiro (imunidade, genética, acidez do estômago), tamanho da carga viral (a quantidade de vírus que chegou até ao paciente) e sorte. As taxas de infecção secundária podem ser elevadas, no entanto lembre-se do surto inicial em Norwalk, apenas metade dos estudantes foi infetada.
7. Após 1 a 2 dias de extremo sofrimento causado pela gastroenterite por norovírus, a maioria das pessoas começa a melhorar
Durante a recuperação, não é incomum sentir-se muito debilitado durante cerca de uma semana enquanto recupera a hidratação e a nutrição, porém a tendência geral é favorável, apesar de alguns sintomas gastrointestinais persistentes.
Como em todas as infecções, a doença é mais grave em pessoas muito idosas e imunocomprometidas. Para este último grupo, a doença pode ser prolongada, durando semanas ou mesmo meses, levando a uma perda de peso significativa.
8. Não existe tratamento antiviral para o norovírus
O tratamento é de suporte, com o objectivo de manter a hidratação e garantir a ingestão de, pelo menos, algumas calorias durante a fase aguda. Lembre-se, mesmo as pessoas com cólera, a doença diarreica mais notória e potencialmente fatal da humanidade, conseguem absorver líquidos quando administrados em abundância. Por isso, a hidratação é fundamental.
Em que consiste a recuperação?
Existem muitos conselhos na Internet, com diversas dietas recomendadas (por exemplo, banana, arroz, puré de maçã, torradas, a dieta “BRAT”, caldos claros, evitar laticínios e alimentos picantes, entre tantas outras.), no entanto a realidade é que não temos evidências científicas sólidas para nenhuma dieta específica. É difícil indicar aos doentes para comerem o que quiserem, com moderação, e para prestarem atenção aos sinais do corpo. O regresso da fome é um excelente sinal de que a pessoa está a recuperar.
9. O teste de diagnóstico de eleição para o norovírus é o PCR em fezes
Muitos laboratórios realizam agora primeiro testes moleculares, não culturas, para avaliar as causas da diarreia. Como é muito comum, o norovírus está incluído em todos os paineis multiplex que testam múltiplos agentes patogénicos.
O aumento da utilização de testes moleculares explica, sem dúvida, pelo menos em parte, o aumento da incidência desta infecção. Todavia, por outro lado, a grande maioria dos casos nunca é diagnosticada, portanto, quaisquer números que vejamos sobre a incidência são, sem dúvida, uma grande subestimação.
10. As estratégias de prevenção incluem a lavagem frequente das mãos, a limpeza de superfícies contaminadas e o isolamento de doentes sintomáticos
Como referido anteriormente, apesar da disseminação viral ocorrer tanto antes como depois do período sintomático, o momento de maior risco de transmissão é durante a fase sintomática da doença. Teremos algum dia uma vacina contra o norovírus? Talvez, embora existam muitos obstáculos.
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