10 belos poemas para ler e desfrutar na sua Véspera e Dia de Natal

familia-natal e poesia

Para um serão cultural e interessante o melhor de 10 sugere uma lista de 10 poemas de natal que pode ler e partilhar com os seus, para embelezar ainda mais a sua noite e dia de Natal. Esperemos que seja do vosso agrado e um Santo e Feliz Natal.

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    1. Ary dos Santos – Quando um homem quiser

    Ary dos Santos - As palavras das cantigas

    Tu que dormes à noite na calçada do relento
    numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
    tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
    és meu irmão, amigo, és meu irmão

    E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
    numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
    e sofres o Natal da solidão sem um queixume
    és meu irmão, amigo, és meu irmão

    Natal é em Dezembro
    mas em Maio pode ser
    Natal é em Setembro
    é quando um homem quiser
    Natal é quando nasce
    uma vida a amanhecer
    Natal é sempre o fruto
    que há no ventre da mulher

    Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
    tu que inventas bonecas e comboios de luar
    e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
    és meu irmão, amigo, és meu irmão

    E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
    fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
    pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
    és meu irmão, amigo, és meu irmão

    Ary dos Santos, in “As Palavras das Cantigas”

     

    2. Natália Correia – Falavam-me de amor

    Natália Correia - O dilúvio e a pomba

    Quando um ramo de doze badaladas
    se espalhava nos móveis e tu vinhas
    solstício de mel pelas escadas
    de um sentimento com nozes e com pinhas,

    menino eras de lenha e crepitavas
    porque do fogo o nome antigo tinhas
    e em sua eternidade colocavas
    o que a infância pedia às andorinhas.

    Depois nas folhas secas te envolvias
    de trezentos e muitos lerdos dias
    e eras um sol na sombra flagelado.

    O fel que por nós bebes te liberta
    e no manso natal que te conserta
    só tu ficaste a ti acostumado.

    Natália Correia, in “O Dilúvio e a Pomba”

     

    3. Eugénio de Andrade – Último poema

    Eugénio de Andrade - O Rente do Dizer

    É Natal, nunca estive tão só.
    Nem sequer neva como nos versos
    do Pessoa ou nos bosques
    da Nova Inglaterra.
    Deixo os olhos correr
    entre o fulgor dos cravos
    e os dióspiros ardendo na sombra.
    Quem assim tem o verão
    dentro de casa
    não devia queixar-se de estar só,
    não devia.

    Eugénio de Andrade, in “Rente ao Dizer”

     

    4. Miguel Torga – Natal Divino

    Miguel Torga - Antologia Poética

    Natal divino ao rés-do-chão humano,
    Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
    Encolhido
    À lareira,
    Ao que pergunto
    Respondo
    Com as achas que vou pondo
    Na fogueira.

    O mito apenas velado
    Como um cadáver
    Familiar…
    E neve, neve, a caiar
    De triste melancolia
    Os caminhos onde um dia
    Vi os Magos galopar…

    Miguel Torga, in “Antologia Poética”

     

    5. José Régio – Natal

    José Régio - Poesia

    Mais uma vez, cá vimos
    Festejar o teu novo nascimento,
    Nós, que, parece, nos desiludimos
    Do teu advento!

    Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
    Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
    Festejar-te, — do fundo
    Da miséria que somos.

    Os que à chegada
    Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
    Somos — não uma vez, mas cada —
    Teus assassinos.

    À tua mesa nos sentamos:
    Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
    Mas por trinta moedas te entregamos;
    E por temor, negamos o teu nome.

    Sob escárnios e ultrajes,
    Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
    Te rojamos nas lajes;
    Te cravejamos numa cruz infane.

    Depois, a mesma cruz, a erguemos,
    Como um farol de salvação,
    Sobre as cidades em que ferve extremos
    A nossa corrupção.

    Os que em leilão a arrematamos
    Como sagrada peça única,
    Somos os que jogamos,
    Para comércio, a tua túnica.

    Tais somos, os que, por costume,
    Vimos, mais uma vez,
    Aquecer-nos ao lume
    Que do teu frio e solidão nos dês.

    Como é que ainda tens a infinita paciência
    De voltar, — e te esqueces
    De que a nossa indigência
    Recusa Tudo que lhe ofereces?

    Mas, se um ano tu deixas de nascer,
    Se de vez se nos cala a tua voz,
    Se enfim por nós desistes de morrer,
    Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

    José Régio, in “Obra Completa”

     

    6. António Nobre – Natal de um poeta

    António Nobre - Só

    Em certo reino, á esquina do planeta,
    Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
    Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
    Que melhor fôra não a ver jamais.

    Mal despontava para a vida inquieta,
    Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
    A falsa-fé, n’uma traição abjecta,
    Como os bandidos nas estradas reaes!

    E, embora eu seja descendente, um ramo
    D’essa arvore de Heroes que, entre perigos
    E guerras, se esforçaram pelo ideal:

    Nada me importas, Paiz! seja meu amo
    O Carlos ou o Zé da Th’reza… Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!

    António Nobre, in “Só”

     

    7. Vitorino Nemésio – Natal Chique

    Vitorino Nemésio- Antologia Poética

    Percorro o dia, que esmorece
    Nas ruas cheias de rumor;
    Minha alma vã desaparece
    Na muita pressa e pouco amor.

    Hoje é Natal. Comprei um anjo,
    Dos que anunciam no jornal;
    Mas houve um etéreo desarranjo
    E o efeito em casa saiu mal.

    Valeu-me um príncipe esfarrapado
    A quem dão coroas no meio disto,
    Um moço doente, desanimado…
    Só esse pobre me pareceu Cristo.

    Vitorino Nemésio, in “Antologia Poética”

     

    8. David Mourão Ferreira – Elegia de Natal

    David Mourão Ferreira - Cancioneiro de Natal

    Era também de noite Era também Dezembro
    Vieram-me dizer que o meu irmão nascera
    Já não sei afinal se o recordo ou se penso
    que estou a recordá-lo à força de o dizerem

    Mas o teu berço foi o primeiro presépio
    em que pouco depois o meu olhar pousava
    Não era mais real do que existirem prédios
    nem menos irreal do que haver madrugadas

    Dezembro retornava e nunca soube ao certo
    se o intruso era eu se o intruso eras tu
    Quase aceitava até que alguém te supusesse
    mais do que meu irmão um gémeo de Jesus

    Para ti se encenava o palco da surpresa
    Entravas no papel de que eu ia descrendo
    Mas sabia-me bem salvar a tua crença
    E era sempre de noite Era sempre em Dezembro

    Entretanto em que mês em que dia é que estamos
    Que verdete corrói prédios e madrugadas
    De que muro retiro o musgo desses anos
    que entre os dedos depois se me desfaz em água

    Para onde levaste a criança que foste
    Em vez da tua voz que ciprestes são estes
    Como dizer Natal se te não vejo hoje
    Como dizer Natal agora que morreste

    David Mourão-Ferreira, in “Cancioneiro de Natal”

     

    9. Mário de Sá Carneiro – Noite de Natal

    Mário Sá Carneiro - Antologia

    Era a noite de Natal
    Alegram-se os pequenitos;
    Pois sabem que o bom Jesus
    Costuma dar-lhes bonitos.

    Vão-se deitar os lindinhos
    Mas nem dormem de contentes
    E somente às dez horas
    Adormecem inocentes.

    Perguntam logo à criada
    Quando acorde de manhã
    Se Jesus lhes não deu nada.

    – Deu-lhes sim, muitos bonitos.
    – Queremo-nos já levantar
    Respondem os pequenitos.

    Mário de Sá-Carneiro, in “Antologia Poética”

     

     

    10. Fernando Pessoa – Vi Cristo descer à terra

    Alberto Caieiro - Obra Completa

    Num meio-dia de fim de primavera
    Tive um sonho como uma fotografia.
    Vi Jesus Cristo descer à terra.
    Veio pela encosta de um monte
    Tornado outra vez menino,
    A correr e a rolar-se pela erva
    E a arrancar flores para as deitar fora
    E a rir de modo a ouvir-se de longe.

    Tinha fugido do céu.
    Era nosso demais para fingir
    De segunda pessoa da Trindade.
    No céu era tudo falso, tudo em desacordo
    Com flores e árvores e pedras.
    No céu tinha que estar sempre sério
    E de vez em quando de se tornar outra vez homem
    E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
    Com uma coroa toda à roda de espinhos
    E os pés espetados por um prego com cabeça,
    E até com um trapo à roda da cintura
    Como os pretos nas ilustrações.
    Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
    Como as outras crianças.
    O seu pai era duas pessoas
    Um velho chamado José, que era carpinteiro,
    E que não era pai dele;
    E o outro pai era uma pomba estúpida,
    A única pomba feia do mundo
    Porque não era do mundo nem era pomba.
    E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
    Não era mulher: era uma mala
    Em que ele tinha vindo do céu.
    E queriam que ele, que só nascera da mãe,
    E nunca tivera pai para amar com respeito,
    Pregasse a bondade e a justiça!

    Um dia que Deus estava a dormir
    E o Espírito Santo andava a voar,
    Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
    Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha
    fugido.
    Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
    Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
    E deixou-o pregado na cruz que há no céu
    E serve de modelo às outras.
    Depois fugiu para o sol
    E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
    Hoje vive na minha aldeia comigo.
    É uma criança bonita de riso e natural.
    Limpa o nariz ao braço direito,
    Chapinha nas poças de água,
    Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
    Atira pedras aos burros,
    Rouba a fruta dos pomares
    E foge a chorar e a gritar dos cães.
    E, porque sabe que elas não gostam
    E que toda a gente acha graça,
    Corre atrás das raparigas pelas estradas
    Que vão em ranchos pela estradas
    com as bilhas às cabeças
    E levanta-lhes as saias.

    A mim ensinou-me tudo.
    Ensinou-me a olhar para as cousas.
    Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
    Mostra-me como as pedras são engraçadas
    Quando a gente as tem na mão
    E olha devagar para elas.

    Diz-me muito mal de Deus.
    Diz que ele é um velho estúpido e doente,
    Sempre a escarrar no chão
    E a dizer indecências.
    A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
    E o Espírito Santo coça-se com o bico
    E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
    Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
    Diz-me que Deus não percebe nada
    Das coisas que criou —
    “Se é que ele as criou, do que duvido” —
    “Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
    Mas os seres não cantam nada.
    Se cantassem seriam cantores.
    Os seres existem e mais nada,
    E por isso se chamam seres.”
    E depois, cansados de dizer mal de Deus,
    O Menino Jesus adormece nos meus braços
    e eu levo-o ao colo para casa.

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    Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
    Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
    Ele é o humano que é natural,
    Ele é o divino que sorri e que brinca.
    E por isso é que eu sei com toda a certeza
    Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

    E a criança tão humana que é divina
    É esta minha quotidiana vida de poeta,
    E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta
    sempre,
    E que o meu mínimo olhar
    Me enche de sensação,
    E o mais pequeno som, seja do que for,
    Parece falar comigo.

    A Criança Nova que habita onde vivo
    Dá-me uma mão a mim
    E a outra a tudo que existe
    E assim vamos os três pelo caminho que houver,
    Saltando e cantando e rindo
    E gozando o nosso segredo comum
    Que é o de saber por toda a parte
    Que não há mistério no mundo
    E que tudo vale a pena.

    A Criança Eterna acompanha-me sempre.
    A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
    O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
    São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
    Damo-nos tão bem um com o outro
    Na companhia de tudo
    Que nunca pensamos um no outro,
    Mas vivemos juntos e dois
    Com um acordo íntimo
    Como a mão direita e a esquerda.

    Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
    No degrau da porta de casa,
    Graves como convém a um deus e a um poeta,
    E como se cada pedra
    Fosse todo um universo
    E fosse por isso um grande perigo para ela
    Deixá-la cair no chão.

    Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
    E ele sorri, porque tudo é incrível.
    Ri dos reis e dos que não são reis,
    E tem pena de ouvir falar das guerras,
    E dos comércios, e dos navios
    Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
    Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
    Que uma flor tem ao florescer
    E que anda com a luz do sol
    A variar os montes e os vales,
    E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

    Depois ele adormece e eu deito-o.
    Levo-o ao colo para dentro de casa
    E deito-o, despindo-o lentamente
    E como seguindo um ritual muito limpo
    E todo materno até ele estar nu.
    Ele dorme dentro da minha alma
    E às vezes acorda de noite
    E brinca com os meus sonhos.
    Vira uns de pernas para o ar,
    Põe uns em cima dos outros
    E bate as palmas sozinho
    Sorrindo para o meu sono.

    …………………………………………………………….

    Quando eu morrer, filhinho,
    Seja eu a criança, o mais pequeno.
    Pega-me tu ao colo
    E leva-me para dentro da tua casa.
    Despe o meu ser cansado e humano
    E deita-me na tua cama.
    E conta-me histórias, caso eu acorde,
    Para eu tornar a adormecer.
    E dá-me sonhos teus para eu brincar
    Até que nasça qualquer dia
    Que tu sabes qual é.

    ……………………………………………………………

    Esta é a história do meu Menino Jesus.
    Por que razão que se perceba
    Não há de ser ela mais verdadeira
    Que tudo quanto os filósofos pensam
    E tudo quanto as religiões ensinam?

    Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema VIII”



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